segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Miscelânias...

"(...) Eu não sou difícil de ler, é só mistério, não tem segredo, a água é potável daqui você pode beber, meu infinito particular, eis o pior e o melhor de mim, faça a sua parte, eu não sou de Marte, se perca ao entrar no meu infinito particular, sou pequenina e gigante em alguns instantes." "(...) Quase, quantidade, qualidade quis se expressar, apenas mental, lado do sal, mel, coisa quase ideal, mar, calor, inspiração, arte, saber, invenção, teoria, cântico dos cânticos, quântico dos cânticos, cânticos dos quântidos, momento desfaz, Deus." "Dia após dia começo a encontrar, mais de mil maneiras de amar. Pôr do sol e a claridade. Sem pecado e sem juízo. Todo dia livres dois passarinhos cantar pra esse amor estar sempre feliz (...)" "Olha você tem todas as coisas que um dia eu sonhei pra mim, a cabeça cheia de problemas, não importa, eu gosto mesmo assim. Os olhos cheios de esperança, de uma cor que ninguém mais possui. Olha você vive tão distante, muito além do que eu posso ter, eu que sempre fui tão incostante... Olha vem comigo aonde eu for, ser o meu amante e meu amor, vem seguir comigo o meu caminho, e viver a vida só de amor." "Sai da minha frente que eu quero é passar. Mas que nada ... você não vai querer que eu chegue no final. O que eu quero é sambar. Samba de Maracatu (...)" "Não quero nada que não venha de nós dois, queria tanto te trazer aqui... não há nada que ponha tudo em seu lugar, eu sei, o meu lugar esta aí. Não vejo nada mesmo quando acendo a luz, as plantas crescem em nosso jardim pra te mostrar porque, não há nada que ponha tudo em seu lugar, eu sei, meu lugar está aí."

Perguntas de um trabalhador que lê

"Nos livros vem os nomes dos reis, mas foram os reis que transportaram as pedras? Babilônia, tantas vezes destruída, quem outras tantas a reconstruiu? No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde foram os pedreiros? A Grande Roma está chiea de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio só tinha palácios para os seus habitantes? Em cada página uma vitória. Quem cozinhava os festins? Em cada década um grande homem. Quem pagava as despesas? Tantas histórias, quantas perguntas." Brecht

Viver com as flores

— Mestre, como faço para não me aborrecer, com as pessoas? Algumas falam demais, falam de nossa vida, gostam de fazer intriga, fofoca, outras são ignorantes. Algumas são indiferentes. Fico magoado com as que são mentirosas. Sofro com as que caluniam. — Pois viva como as flores! – advertiu o mestre. — Como é viver como as flores? – perguntou o discípulo. — Repare nestas flores – continuou o mestre, apontando lírios que cresciam no jardim. Elas nascem no esterco, entretanto são puras e perfumadas. Extraem do adubo mal cheiroso tudo o que lhes é útil e saudável, mas não permitem que o azedume da terra manche o frescor de suas pétalas. É justo angustiar-se com as próprias culpas, mas não é sábio permitir que os vícios dos outros o importunem. Os defeitos deles são deles e não seus. Se não são seus, não há razão para aborrecimento. Exercite, pois, a virtude de rejeitar todo mal que vem de fora. Isso é viver como as flores.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A doença de ser normal

"Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito “normal” é magro, alegre, belo, sociável, e bem sucedido. Bebe socialmente, está de bem com a vida, não pode parecer de forma alguma que está passando por algum problema. Quem não se “normaliza”, quem não se encaixa nesses padrões, acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento. A pergunta a ser feita é: quem espera o quê de nós? Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas? Eles não existem. Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha presença através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, seja lá quem for “todos”. Melhor se preocupar em ser você mesmo. A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa. Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar? Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias. Um pouco de auto-estima basta. Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras instintivamente, e sim, aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu “normal” e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original. Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros. É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais. Eu simpatizo cada vez mais com aqueles que lutam para remover obstáculos mentais e emocionais, e a viver de forma mais íntegra, simples e sincera. Para mim são os verdadeiros normais, porque não conseguem colocar máscaras ou simular situações. Se parecem sofrer, é porque estão sofrendo. E se estão sorrindo, é porque a alma lhes é iluminada. Por isso divulgo o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes."

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Resiliência

Tente mover o mundo – o primeiro passo será mover a si mesmo. Platão "O ser humano pode ser considerado como a criatura mais elástica da face terrestre. O homem pode traçar os caminhos que desejar, pode refazer rotas e também pode construir ou desfazer objetos. A experiência do homem sobre a Terra sempre foi de duelos, sejam eles materiais ou emocionais. Luta-se contra o poder da natureza como também contra o poder dos pensamentos negativos. Em uma palavra: flexibilidade. O ser humano tem o princípio fundamental da elasticidade. Certas experiências e forças sociais “esticam” nossa sensibilidade para lugares que nunca imaginaríamos. Experiências dolorosas como a morte de parentes, a perda de um bom emprego ou a perda de amigos queridos podem fazer com que este princípio de elasticidade seja perdido, deformado ou esquecido. Para reativar esta maleabilidade (que é um dom de nascimento) criaram o termo resiliência. Trata-se de um padrão de comportamento que, mais do que nunca, deve ser exercitado por todos nós, devido ao ambiente de desafios em que vivemos, seja na organização, seja na vida pessoal. O termo é originado no latim e significa “voltar ao estado natural”. Sendo assim, por analogia, ela é a capacidade adquirida de recuperação que o ser humano pode exercer quando passa por um trauma ou por uma perda grave. O tempo todo passamos por desafios: perdemos amigos, empregos, objetos e pertences que gostamos e que muitas vezes têm valor sentimental para nós. Mas o que é ainda pior é que perdemos, com essas coisas, nossa estabilidade no mundo. Logo, a resiliência é o salva-vidas de nossa estabilidade, pois ela, ao invés de nos fazer fugir dos desafios, convida-nos a encará-los com medidas planejadas e conscientes. O leitor está familiarizado com a expressão popular: “dar a volta por cima”. Desta maneira fica mais fácil entender o termo. Uma pessoa resiliente é aquela que exerce, com uma proposta mais imperativa, a competência emocional do autoconhecimento. Nada está mais próximo do ato de se conhecer bem do que arcar com um desafio e tirar dele um ensinamento para recomeçar. Na verdade, dizem que o verdadeiro resiliente é aquele que não espera uma crise acontecer; ele se antecipa, porque está fundamentalmente conectado ao mundo, percebe os sinais do possível fracasso e usa todos os meios para controlar a situação. Assim, quando um problema grave vem bater à sua porta, já existe uma atitude sendo planejada. Uma medida legítima de autoconhecimento é não deixar um desafio dominar a situação e criar a obscuridade da indecisão. A coisa mais fácil do mundo é se desesperar. Por estranha que pareça esta afirmação, devemos considerá-la como o lado oposto da resiliência. O desespero é o extremo oposto do autoconhecimento e da automotivação. Quem se desespera não se conhece e, por isso, o mundo parece sair dos trilhos, parece ficar maior do que é. Contra o desespero causado por uma perda ou uma situação desagradável, as pessoas precisam conquistar novas atitudes para lidar com a vida. Sendo assim, a resiliência, além de ser o antídoto que restaura a elasticidade dos homens, é também uma proposta de autoconhecimento. O desespero acontece quando: não administramos emoções; não controlamos impulsos; não temos otimismo; não mapeamos nosso ambiente corretamente; não temos empatia e não ouvimos; não buscamos eficácia na ação. Obviamente, a resiliência é uma proposta elaborada dentro de um contexto sócio-histórico, pois carrega valores e significados. Cada grupo social reconhece suas necessidades mais urgentes e as tarefas que precisam exercer para vencer o desespero. Atualmente, com o ambiente de mudança, fusões, crises, competitividade, negociação e conflitos, esta competência é fator fundamental. (...). Como podemos interpretar nas palavras de Platão, o segredo da sagacidade é saber ser sagaz com os próprios movimentos emocionais. Apenas mudando o micro, poderemos mudar o macro, e a resiliência nada mais é do que um fenômeno positivo de um ser consciente de sua capacidade elástica de encontrar a felicidade e aprender com os desafios." Fonte: Leme Consultoria http://www.lemeconsultoria.com.br

domingo, 12 de setembro de 2010

Onde fica a felicidade?

Ela pergunta-se, acho que vendo-a de dentro e de fora é a pergunta que mais se faz. Me disse que procurou por toda parte, seguindo o ditado que ela "está dentro das pessoas", procurou no fígado, no baço, no estômago, nos rins, no intestino, nos ossos, no aparelho respiratório, no pâncreas, e ainda mais profundamente foi ao cérebro, arriscou mais ainda e foi nas veias, no sangue e não a encontrou. Disse-me que teve a coragem de ir ao coração, e também não a encontrou. E então, como um parafuso a rodar, percorreu dos pés à cabeça, e não a encontrou. Entranhou-se nas suas entranhas mais profundas e caminhos labirintosos, e não a encontrou. Pintou as unhas, arrumou o cabelo, passou batom. Achou que talvez por um instante que pudesse encontrá-la no que aparece para o mundo, mas iludiu-se. No fundo ela disse que sabia que isso seria em vão. Então me disse, triste, que é nas lágrimas, no choro que até não sai mais lágrimas, no sofrimento mais genuíno de seu eu, no contrair-se e fechar-se como uma minhoca, em formato de humano no útero, posição fetal, que ela mais sofre porque não encontra a tal felicidade. E o mais triste é que a menina sofre. Me disse ainda que não sabe se a felicidade foge dela, ou se a felicidade não existe, e mesmo se for dentro ou fora, ela tem uma única certeza, que ela não está, não é. Tenho pena da menina porque não sei se procurará mais a felicidade, ou se a felicidade a encontrará, só queria dizer à menina que às vezes a gente ri, sorri, e chora. Se há felicidade aí, eu também não sei responder. Pensando na menina, e ao escrever a palavra felicidade, pensei em seu sentido. E eu me perguntei: De onde vem? Quem inventou? E me respondi que talvez se a palavra não existisse, a menina não passaria tanto tempo sofrendo acreditando que possa encontrá-la pois, ela só busca essa tal felicidade porque ela foi inventada. Inventanda talvez por alguém bem infeliz. Simone Anjerosa de Almeida Camargo

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Mercadão das almas

“Porque os anjos têm asas como as aves. Porque os homens têm pelos como os bichos. E todos nós temos alma como Deus!” (São Francisco de Assis) Há homens morrendo em todos os cantos do planeta. Mortes horrendas, desnecessárias. E há homens que, enquanto não morrem, assistem ao espetáculo da violência, faces da morte distribuídas por canais de TV, pedaços de corpos disputados por jornais e revistas. É este o programa da família. Crianças acostumadas, desde a mais tenra idade, ao sadismo de seu semelhante. Será esse o motivo? Eu procuro um motivo que justifique a frieza do homem diante do sofrimento do outro, seja lá que outro for. Foi assim com Sócrates, Cristo, Zumbi, Gandhi, Martin Luter King, Tiradentes, Lennon, garotos arremessados de um trem em movimento e tantos outros que, a seu modo, exerciam ou lutavam pela liberdade e pela paz, mas foram premiados com a cruz, com a faca, com a bala, com a bomba, com a tortura, carentes de inteligência e de sanidade. Quais são mesmo os motivos? Ainda não sei. Ser humano sem humanidade? É um triste paradoxo. Como se um peixe que não soubesse nadar, como uma águia que se recusasse a voar. Estou perplexa. Aqui, no Mercado da Cantareira, em São Paulo, acompanhada de meu amigo Christopher, essas interrogações me invadem. Esses porquês. Como é que esses homens, sem humanidade, vão-se comover com animais amontoados em gaiolas, implorando por socorro, por misericórdia? Há, por exemplo, um box especializado em venda de animais para rituais religiosos. Há pequenos bodes, cabritos e galos pretos à espera do sacrifício. Os primeiros nem lutam mais pela vida. Chegaram a lutar antes de entrar num caminhão, a milhares de quilômetros daqui. Chegaram a lutar dentro do caminhão – com berros, com chifradas – por ar, por água, por comida. Agora, presos numa cela de azulejos brancos, eles se ferem um aos outros. Estão cegos, paralisados pelo medo e pela dor. Acaricio a cabeça de um deles, que não reage. Parece um animal empalhado. Só sei que está vivo porque o corpo esquelético respira. Uma pessoa se aproxima. Olha os galos pretos, que gritam inconformados. Eles são valentes. Ela escolhe um. O dono do box – um homem branco, gordo, com uma expressão tão fria quanto a de um manequim de loja (terá filhos? terá um amor?) – o dono do box abre a gaiola e agarra o animal pelas pernas. O galo bem que tenta reagir: grita, bate as asas, imponente. O dono, então, levanta-o e, com precisão, arremessa sua cabeça contra a parede. Não, o bicho não morre. O homem é “bom” no que faz. Deixa-o em estado de choque, entre a vida e a morte. Porque seu novo dono o quer vivo: o ritual exige seu sangue quente. O funcionário do box, mais falante, diz que tem dó dos bichos. Mas o que se há de fazer? “Nós cuidamos deles, passamos remédio nos olhos feridos. Mas eles se ferem novamente”, explica o rapaz, o erro dos bichos. Chega? Não. Há também os coelhos. Um deles, cujo valor foi estabelecido em trinta reais, lambeu meus dedos quando o peguei no colo. Nunca tinha visto isso. Queria levá-lo comigo; entretanto, Christopher me disse que seria um incentivo à continuidade daquele comércio. Não levei. Hoje, sinceramente, arrependo-me. Eu não queria ver mais nada. Mas ninguém entra num local desses impunemente. É preciso ir ao Mercado Municipal, próximo ao da Cantareira, onde também há animais. Estes, por sua vez, estão todos mortos. São exibidas cabeças de porcos dentro de um freezer transparente com o nome de “Porco Feliz”. E um anúncio grande num outro box, com os dizeres: “temos filhotes de javali”. Sim, tem gente que faz sua ceia de Natal com filhote de javali. Estou cansada. Não aguento mais ver essas fotos nem escrever sobre o que vi. Eu só espero que as pessoas – nas festas de Natal e Ano Novo – valorizem mais o amor do que cadáveres sobre a mesa, façam mais amor do que rituais sangrentos. Porque a vida nos dá o que damos a ela. Só teremos um ano melhor se plantarmos, uma a uma, as sementes dos frutos que queremos colher. Eu desejo a todos vocês que saibam semear com sabedoria." Por Adriana Bernardino